terça-feira, 27 de julho de 2010

Arqui+tetura: Uma Conta que Resulta em Soma


A “Arquitetura Digital” aqui não é a da era da informática, mas sim, a das marcas que cada um apresenta, única e singulares em seu dedo polegar. É a individualidade que torna a concepção de um espaço adequado a quem irá ocupá-lo. O arquiteto tem que ser o profissional preparado para descobrir esta particularidade e, assim, responder adequadamente com seu ferramental, tornando tal espaço pleno no atendimento a todas as necessidades desses seus futuros ocupantes.


Não posso admitir projetar uma residência para um “público-alvo”!

"Público-alvo" eu só posso imaginar encontrar em projetos para lojas comerciais.

Como criar espaços que produzam somente efeitos benéficos às vidas das pessoas que os utilizarem, sem saber quem são, o que gostam, ou não, o que querem e o que esperam da vida estando ali? Como garantir que meu projeto seja um “plano perfeito” e, esteja tão correto que me permita assumir tranquilamente este compromisso, seja perante uma criança, um idoso, um casal de jovens recém-casados, uma empregada doméstica, um porteiro ou qualquer outro que irá utilizar um espaço por mim projetado – sem eu ter levado em consideração quem realmente será este usuário final?

“Que somente se façam empreendimentos com projetos elaborados depois de vendidas todas as suas unidades, e se conheçam antecipadamente, todos os seus futuros ocupantes”. Utopia? Impossível? Talvez sim… Talvez não… Será que não existe uma solução? Alguma maneira que nos permita projetar sabendo exatamente para quem?

Foi este um dos principais motivos que me levaram nos anos 80, a procurar na Arquitetura de Interiores, o contato direto com os clientes e a liberdade de criação, tanto na concepção artística, como, principalmente, na inexistência de normas técnicas e códigos de leis e decretos rígidos e restritivos, além das naturais convenções, propostas pela sociedade e ambiente em que se está inserido.

O foco de minha posição, hoje, é propor o estudo das consequências da concepção de projetos de edifícios condominiais e de espaços urbanos na vida das pessoas. Paralelamente, obter, através dos maus exemplos já construídos, as lições a serem aprendidas de forma a evitar suas reincidências.

Pouco se fala dos efeitos de uma má arquitetura e de um projeto urbanístico na grande maioria das vezes equivocado. Nesses casos, os profissionais acreditam que levam em consideração seus usuários, mas, na verdade, pautam-se no que seria melhor para a maioria – e essa abordagem significa, por si só, o não atendimento das necessidades de muitos. Os resultados possíveis desse processo são, entre outros, os efeitos nocivos à saúde e à qualidade de vida do morador.

Um espaço criado de forma desqualificada pode transformar atividades agradáveis em rotinas irritantes e estressantes. Pode alterar nosso humor sem que saibamos a causa; e, ainda pode prejudicar em muito a nossa saúde, e até, em longos períodos de desconforto extremo, causar nossa morte.

Dizer que um projeto de um imóvel não é qualificado pode ser leviano de minha parte, pois não tenho como levar em consideração quesitos importantes, e avaliar razões diversas, tais como custos, tempo, riscos, tecnologia disponível, mercado, etc. Porém, é necessário primeiro, responsabilizar quem elabora e quem tem a obrigação de fiscalizar um projeto de um “edifício lamentável”. É comum se encontrarem unidades residenciais extremamente carentes, mas muito bem maquiadas comercialmente, gerando estímulos irresistíveis que focam apenas o que se quer mostrar.

Esta “sociedade enganada” precisa se tornar mais consciente e exigente, através de veículos de informações e de exemplos que a faça aprender a repudiar de imediato tais projetos inconseqüentes. Com tantos ganhos em termos de qualidade de vida nas últimas décadas, é esperado que sejam sepultados definitivamente tais projetos, e assim, inicie-se uma nova era na relação entre quem faz para ser vendido e quem compra para ser usado.

Proponho a criação de um “Manual da Excelência Arquitetônica”, onde seriam listadas as necessidades gerais das pessoas em relação ao local onde pretendem viver, baseadas em levantamentos de dados, métricos e ergono-métricos básicos dos moradores da região onde se construirá o imóvel, acrescidas de determinadas normas legais importantes e necessárias.

Como exemplo de itens gerais a serem listados no Manual, posso apresentar a preocupação com um acesso amplo e protegido à edificação, tendo uma entrada principal e outra pelo estacionamento, pois há décadas a entrada pelo estacionamento se tornou imprescindível diante da maioria possuir automóvel, e também, com um sistema adequado para regular a perda/ganho de calor/frio de dentro para fora e vice-versa quando for o caso, e ainda, com as dimensões de aberturas, com a eficiência dos equipamentos, etc.

O Manual contemplaria também, e principalmente, as necessidades personalizadas, individualizadas, marcadas digitalmente por cada futuro morador.

Seriam então desenvolvidas as soluções que contemplassem tanto os interesses de empreendedores imobiliários, arquitetos e construtores, quanto dos adquirentes das unidades do edifício ou condomínio ainda a ser construído.

É importante ressaltar que o manual será, por princípio, um organismo vivo, não finito. Ele representará um retrato das necessidades dos moradores no momento em que ele for redigido. Depois, deverá ser atualizado constantemente, com soluções que se adéqüem às novas demandas, bem como a partir do aprendizado com as experiências anteriores.

As salas não poderão mais serem mal dimensionadas nem mal proporcionadas. Não se poderá mais obrigar ninguém a passar diariamente por uma circulação que lhe seja apertada, ou não usufruir de um sistema de ventilação e iluminação naturais eficiente. Não acontecerá de o morador ter que conviver com a ausência de uma solução humanamente adequada para determinados espaços, mesmo que legislativamente permitida, fundamentadamente projetada, criteriosamente executada e maquiadamente vendida (desta forma legal, porém indigna para com aqueles que ali irão viver). As relações se tornarão transparentes, leais e verdadeiras, com foco total no que o usuário, e somente ele, considera como a sua concepção de qualidade de vida.

Você imagina ser consultado pelo arquiteto que projetará o edifício onde você irá morar dentro de uns dois anos? Que perguntas ele lhe faria e o que responderia?

“… Eu quero que ela me abrigue da chuva, do vento, do calor e do frio, me proteja e me dê tranqüilidade e calma ao voltar de um dia de trabalho. Contenha os retratos dos momentos da minha vida e da minha família, seja o berço de… etc, etc, etc…”

É preciso que exista uma relação verdadeira entre as pessoas envolvidas e esta seja transportada para o projeto da casa, de forma que ela também inspire essa confiança, essa necessária honestidade para com os moradores. Seu lar tem de ser o que ele é: ter medidas e proporções adequadas a você, sem ornamentações supérfluas, sem detalhes desnecessários nas fachadas, sem aquelas soluções simplesmente estéticas baseadas em gostos relativos. O compromisso com o que é verdadeiro deve se manter, do início do projeto até o fim da sua execução, exemplificando condutas entre as pessoas.

Os materiais seguem a mesma regra, sem modificações que interfiram na sua natureza: pedra, madeira, concreto, vidro, sem revestimentos que imitem outros materiais, como pisos que imitam mármore ou laminados que imitam madeira.

Nada de falsidade! Nada de omissões! A comunicação tem que ser direta, sem interferências difusas. A nova arquitetura não deve esconder nada: caixas d’água, lavanderia ou o quarto da empregada. Tudo deve ser o que realmente é, o que se vê porque existe, da melhor forma possível. A beleza de sua casa estará na dignidade e honestidade, desde o momento de sua concepção como idéia. Integridade: o que se faz, deve seguir o que se fala e o que se promete seguido do que realmente será cumprido.

Certa vez, no início de minha carreira, ao iniciar o desenvolvimento de um projeto de arquitetura de interiores para o apartamento de um jovem casal, minha cliente, perdeu sua mãe falecida inesperadamente. Chocada e muito triste, ela não se interessava obviamente por nada que se relacionasse com o futuro. A dor sempre a trazia para o presente e um projeto, nada mais é que o planejamento de um “sonho futuro”, a se realizar em uma determinado prazo.

Imaginei, então, ajudá-la a superar este momento através das ferramentas que possuía. Desenvolvi uma sala íntima onde ela viesse a "olhar para cima"! Você quer sair de um estado depressivo? Levante a cabeça e olhe para cima...

Torneados em mogno com verniz poliuretano alto brilho saíam horizontalmente da parede nobre do ambiente em direção ao seu centro, e iniciavam uma curva de 90º em direção perpendicular ao teto rebaixado em gesso liso, e pintado com tinta esmalte sintético alto brilho na cor branca.

Em outras palavras, projetei cilindros de madeira com 5cm de diâmetro, que saíam de dentro da parede principal da sala, a uns 50cm do teto rebaixado e, ao se aproximarem do centro do ambiente, iniciavam uma curva subindo em direção ao teto que, pintado com tinta branca brilhosa, os refletia como um espelho, dando a sensação de “dedos das mãos a se perderem em direção aos céus”. Não lhe falei sobre minha interpretação, porém, ela aprovou a idéia de imediato e acredito que, se eles ainda morarem lá, meu trabalho também ainda esteja lá.

Em inúmeros exemplos pelo mundo afora, os arquitetos têm procurado introduzir em seus projetos, não só estas sensíveis relações humanas interiores com seus clientes, como também a relação com o mundo exterior – a natureza. Nos lugares onde as pessoas vivem, incentiva-se a criação de jardins internos ou vistas externas, aberturas superiores, tanto para que se possa olhar para o céu como para se poder trazer luz natural para o interior.

Implantam-se, até mesmo, lâminas d’agua como lagos internos, que refletem o entorno, e ainda, utilizam de forma ampla a transparência dos vidros, e as influências das energias subliminares, como a Chi no Feng Shui tradicional, tentando unificar os seres humanos com suas divindades, sejam quais forem, permitindo-lhes obter o prazer e os benefícios que a energia destas interações proporciona. Provavelmente, acredito, existe algo mais “por trás das paredes”.

Falamos de “boas energias” mas é necessário falarmos também das “más energias” que, antagonicamente existem, tal qual o branco e o preto ou o claro e o escuro. Alguns edifícios possuem grades de fechamento, alarmes, controles e vidros a prova de balas, ocasionando interiores escuros e mal ventilados. Muitas vezes não há qualquer visão do exterior a não ser pelas telas dos monitores de imagens. É como se todos estivessem ainda vivendo na idade das cavernas, com medo dos animais ferozes, das intempéries, trovões e ocorrências “inexplicáveis”, fazendo com que o medo torne a prisão melhor que a liberdade.

Obviamente, não posso propor exposição a perigos mas tenho a obrigação de pensar a respeito.

Fugindo um pouco do tema arquitetônico, talvez o problema da insegurança que nos atinge como cidadãos possa ser resolvido. Acredito que ele é uma conseqüência de atos inconseqüentes de quem deveria dar exemplos a serem seguidos mas, pelo contrário, apresentam cada vez mais maneiras criativas de como “vender a mãe”, enquanto preparam outro negócio com mais um ente querido, já elaborando as propagandas enganosas destinadas aos próximos otários. Este vírus já disseminado em quase todas as atividades humanas, somente será destruído com a modificação desta mentalidade doentia e egocêntrica, instalada em quem detém este poder.

Plano para a construção de um milhão de casas? Em que levantamentos se baseiam as “autoridades competentes”? Nem estas autoridades, nem os arquitetos, construtores e técnicos de planejamento, têm a menor idéia do que estão fazendo, do tipo de edifício ou condomínio que estão por construir. Os resultados destes projetos, sejam políticos e/ou financeiros, maximizados ao máximo, são prioritários.

É aqui que deve entrar em cena, o Gerente de Projetos, pois ele é o profissional capaz de equilibrar os interesses de todos os stakeholderes (envolvidos). Ele é capaz de criar não só os Planos de Custos, Tempo, Riscos, etc., mas, principalmente, um Plano de Comunicação diferenciado, contendo um novo sistema que fizesse com que todos os interessados fossem não só ouvidos (e escutados), mas atendidos em suas reais necessidades.

Se os investidores, incorporadores e empreendedores imobiliários, os arquitetos e construtores, bem como os adquirentes dos imóveis, possuíssem o conhecimento adequado, baseado na observação e exemplos de outras sociedades mais conscientes e experientes, então entenderiam que um edifício multifamiliar não é qualquer imóvel que possa ser resolvido como quem projeta uma loja ou um escritório.

Este público não pode ser considerado da mesma forma que outros. Ele não pode somente ser observado como um resultado conjunto de uma pesquisa de opinião local ou de um “estudo de massa”.

Ali se viverá. Não se pode errar! Esse tipo de condomínio residencial tem que ser especial, seus espaços devem atender totalmente aos desejos de cada um que ali irá morar e não a um todo generalizado ou a uma “grande parcela da população”.

Não quero terminar este artigo de forma pessimista…

Gostaria como arquiteto e gerente de projetos de unidades multifamiliares, se assim eu o fosse, de poder oferecer a identificação para aquilo que as pessoas buscam, individualmente, como seus conceitos de realização de vida. A minha felicidade seria poder criar ambientes que garantissem a felicidade constante dos seus moradores. Permitir, com meu trabalho, que as pessoas valorizassem suas próprias vidas diariamente.

Gostaria que as pessoas interagissem com seus ambientes, desfrutando de seus espaços personalizadamente bem planejados e para elas especialmente criados. Que fossem estimuladas de formas diversas pelas soluções, que juntos pudéssemos ter produzido, tornando esta uma arquitetura economicamente viável e também, indiscutivelmente humana, pessoal e digital, a qual considero a proposta mais justa a ser feita para com todos que dela usufruem.

Para mim, o maior dilema da arquitetura, desde sempre, a eterna relação “homem x espaço”, sempre representou e ainda representa, uma conta que resulta em soma!

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